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Gaia Ciência

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Ramsés II e a Batalha de Kadesh

Ramsés II (1304-1237 a.C.) foi o símbolo da recuperação do Egito, durante um longo reinado, e a sua fama perdurou por toda a antiguidade, tendo sido equiparado a Sesóstris. De acordo com a expressão de Gardiner, «se a grandeza de um faraó se mede pelo tamanho e número de monumentos que ficaram para lhe perpetuar a memória, o filho e sucessor de Seti I, Ramsés II, deveria ser considerado igual ou superior aos orgulhosos construtores das pirâmides».

 

Ramsés II

 

Co-regente do seu pai, participou no governo quando ainda era jovem. Uma vez na qualidade de faraó único, realizou uma viagem entre o norte e Tebas para assistir à festa Opet e no regresso visitou Abidos, onde viu os templos que seu pai mandara construir, ainda inacabados, e verificou que as doações não tinham sido cumpridas. Chegado à corte de Pi-Ramsés (Tanis?) reuniu a corte e decidiu continuar as obras do seu pai.

 

Outros feitos relativos aos primeiros anos de governo de Ramsés II foram os que se encontram relatados na estela de Kubán, localidade da Núbia onde se iniciava a rota do ouro (Uadi el-Alaqi). De acordo com a estela, o faraó preocupou-se com o fornecimento de água necessário para a extração do mineral. Passado pouco tempo, todavia, teve que se ocupar com a política externa da Síria, onde os hititas tinham voltado a intrigar e a mexer os peões. O poema de Pentaur e os baixos-relevos dos templos conservam memórias destas campanhas.

 

No início do reinado surgiram no litoral os «sherden», citados numa estela de Tanis, a quem ninguém ousava opor resistência, mas uma vez vencidos passaram a engrossar a guarda do faraó. No quarto ano deu início a uma campanha na Palestina que se prolongou até Nahr el-Kelb e edificou uma estela. No ano seguinte empreendeu nova expedição à Síria, onde Muwattali tinha formado uma grande coligação contra o Egito, na qual participavam os exércitos de Naharina, Arvad, Mesa, Keshkesh, Kelekesh, Luka, Kezweden, Carchemish, Ekereth, Kode, Nuges, Mesheneth e Kadech.

 

Ramsés II fazia-se acompanhar por quatro divisões, de Amon, Ré, Seth e de Ptah. Partiu de manhã com a divisão de Amon para tomar Kadesh, quando os seus serviços capturaram dois espiões shasu que afirmaram estar do lado do faraó e quando foram interrogados deram a notícia falsa de que o rei hitita ainda se encontrava distante, na região de Alepo. Confiado nesta informação, Ramsés II acampou frente a Kadech, e dois exploradores hititas foram levados à presença do faraó, confessando que o rei hitita tinha manobrado de forma a cortar o caminho à divisão de Ré e que constituía uma ameaça para o próprio Ramsés. Este prontamente reuniu um conselho de guerra reprovando com profundo desagrado a atuação dos serviços de espionagem egípcios. As divisões que tinham ficado para trás foram chamadas a intervir de urgência, e o hitita atacou de improviso. A ação terminou graças a um ataque dirigido pelo próprio faraó.

 

Batalha de Kadesh

 

A narrativa do poema de Pentaur, escrita de acordo com o modelo literário da «novela real», fez de Ramsés o único protagonista do combate. «Então Sua Majestade partiu a galope e penetrou na hoste dos cobardes de Hati, encontrando-se completamente só com ele. Sua Majestade viu-se rodeado por 2500 parelhas de cavalos conduzidas pelos cobardes valentões de Hati. Invocou seu pai Amon e este deu-lhe forças para destroçar os inimigos.» Na realidade, supõe-se que o que terá salvo a situação terá sido a chegada das divisões de reserva.

 

Seja como for, os egípcios atribuem a vitória a eles próprios e proclamam-na em todos os monumentos e textos, mas os arquivos de Böghaz-Köi registam a semiderrota de Ramsés e noticiam o avanço dos hititas na Síria. A guerra prosseguiu na Síria, porque Muwattali tratou de sublevar a Palestina e, assim, no oitavo ano Ramsés viu-se obrigado a reduzir Dapur ao país de Amor e inclusive Ascalon, na fronteira egípcia. Uma inscrição do Ramesseum alude a uma outra campanha no país de Naharina.

 

Desconhecemos as últimas guerras que terminaram com o tratado de paz entre o Egito e o país de Hati. Por um feliz acaso da investigação histórico, temos a versão egípcia em Karnak e a hitita em Böghaz-Köi redigida em cuneiforme babilónico. As diferenças entre os dois textos são importantes, mas não é por esse facto que deixa de se tratar do mesmo documento. O acordo foi realizado sob a proteção dos deuses dos dois países. A paz foi restabelecida entre ambos e proceceu-se à troca dos trânsfugas dos dois lados, embora tenha sido acordado que não seriam perseguidos depois da extradição.

 

Pelo lado do Egito assinou Ramsés e pelo lado dos hititas assinou Hatusili, que manteve uma correspondência de grande cortesia com o faraó, correspondência essa onde também participaram as respetivas esposas Nefertari e Pudukhipa. Através dessas cartas ficamos a saber que foi realizado o casamento de uma filha do rei hitita com Ramsés II que, muito agradado com a beleza da jovem, a elevou à categoria de esposa real.

 

As negociações foram longas e complicadas, e apenas depois de uma grande pressão por parte dos egípcios foi possível chegarem a um final feliz, o que nos leva a pensar que a influência egípcia na Ásia devia ser apenas transitória ou pelo menos não tão forte como se pensava. Um conto de uma época tardia refere que uma irmã da princesa hitita, que tinha ficado no seu país, adoeceu, e tendo os médicos locais falhado nas tentativas de cura, bem como um médico propositadamente enviado do Egito, foi preciso enviar uma estátua de Khonsu, que fez o milagre de expulsar o espírito malfazejo.

 

Também estiveram em guerra com a Líbia, embora as notícias que chegaram até nós sejam muito confusas. Mais claras são as relações com a Núbia, com a qual Ramsés se preocupou muitíssimo, concretamente no que diz respeito às suas minas de ouro.